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NÃO HÁ FUTURO SEM SOLIDARIEDADE

O texto seguinte, retirado do livro "Não há futuro sem solidariedade" do antigo Cardeal Arcebispo de Milão, D. Dionigi Tettamanzi, é um testemunho tocante de uma jovem de Milão que, se dirige ao Arcebispo de forma muito direta e genuína, e lhe pede uma orientação para as muitas dúvidas que se lhe colocam. Vale a pena ler.

DO CARDEAL ARCEBISPO DE MILÃO (ITÁLIA)
D. DIONIGI TETTAMANZI

Como já sublinhei muitas vezes, o problema da solidariedade e, especialmente, o da sobriedade como via privilegiada para lá chegar, com a consequente exigência de um preciso estilo de vida — tanto pessoal como social —, reveste-se de uma importância decisiva sob o perfil cultural e educativo, ainda antes do operativo. Neste sentido, e independentemente das alusões já feitas à solidariedade vivida na família e no mundo do trabalho, deveríamos entrar aqui no "planeta" dos jovens.
Limito-me a transcrever uma carta interessante que recebi (inserindo nela alguns sublinhados para, alem do seu testemunho pessoal, também torná-la intérprete de uma ampla situação social e cultural hoje existente) a que anexarei a minha resposta.

Caríssimo Arcebispo,

Sou uma rapariga de vinte e um anos, ando na universidade, amo o Senhor e também a sua Igreja. Escrevo-lhe, dirigindo-me ao Arcebispo desta nossa diocese, a que estou muito afeiçoada pela minha história e pela minha vida. Escrevo-lhe sem formalidades, como se escrevesse a um pai na fé, que pela experiência e pelo dom da inteligência, pode ajudar-me a encontrar respostas que sozinha me custa alcançar.
Desejaria partilhar consigo alguns pensamentos que me são muito queridos neste momento da minha existência, da nossa diocese e do nosso país. Gostaria de pedir-lhe que me ajudasse a encontrar um caminho no meio de tantos pensamentos que tenho e tantos sentimentos contraditórios que nascem no meu coração.

Não é fácil ser jovem hoje e não é fácil, como jovem, com o entusiasmo e o impulso da idade, viver os valores mais verdadeiros, os que dão sentido à vida, numa sociedade fortemente desequilibrada no presente e marcadamente dividida em si mesma; numa sociedade em que o interesse pessoal e o motor que move cada acção, em que o outro é sempre visto como alguém que não pode deixar de roubar-nos alguma coisa.
Com frequência, ao ouvir o telejornal, sinto-me incomodada com notícias de violência contra os imigrantes, os pobres e os estrangeiros. Sinto-me incomodada ao ouvir os discursos de muitos dos jovens da minha idade que não conseguem apaixonar-se por nada que não seja o seu interesse que não pensem em nada além do seu perfil do Facebook, de um jogo de futebol, dos rapazes ou das raparigas que irão abordar ou do último concorrente expulso da casa do Big Brother. A solidariedade, o impulso para quem está em dificuldade, a compaixão, o sentir na sua própria carne os sofrimentos das pessoas, são temas que já não estão na moda. Porquê, Arcebispo?

Porque é que tantos jovens já não conseguem apaixonar-se pelas vidas dos seus irmãos menos afortunados, sentir aquela dor que nos faz desejar curar as feridas de uma sociedade que continua a gerar novos pobres, gastando a nossa vida no serviço? Porque são mais ruidosas as notícias dos escândalos do que a morte de um sem-abrigo nas ruas de Milão? Muitas vezes, apodera-se de mim um profundo desconforto.
Se nós, eu e os meus amigos, meus companheiros de universidade, se os jovens que desde sempre foram quem mais levantou a voz, que, talvez ingenuamente, queriam carregar às costas as pobrezas dos irmãos; se nós, que deveríamos fazer da solidariedade o nosso estilo de vida, não nos deixamos ferir por aquilo que acontece à nossa volta; se já não temos olhos para ver a pobreza, mãos para oferecer algum momento de conforto, pés para caminhar em direcção ao outro; se nós, jovens, já não nos interrogamos sobre o modo como nos pomos ao serviço dos outros, se não temos a coragem de renunciar a um pouco de tempo e, porventura, de algum dinheiro para os dar a quem já nem sequer tem coração para esperar, então quem o fará?

Arcebispo, sinto o peso de todas estas contradições, umas vezes enraiveço-me, outras, sofro e faço alguma coisa, outras ainda, rezo. Nalguns momentos fico muito incomodada, noutros vem-me uma vontade incrível de fazer, de me dar, por inteiro, a algo de grande e de universal. Faz-me bem quando me apercebo de que ao lado de tanta indiferença, de tanta raiva e de tão pouco respeito por quem está pior que nós, há outros jovens que escolheram caminhar uma vida inteira na estrada da solidariedade; procuram ir contra a corrente para dizer, com humildade e simplicidade, que no caminho que desce Jerusalém para Jericó ainda está um homem no chão à espera de alguém que o socorra. Por vezes, também eu como eles renuncio a um pouco de tempo livre ou a algumas férias demasiado cómodas, para me pôr ao serviço dos outros. Não quero acreditar em quem me diz que os jovens já não são capazes de nada, nem sequer de uma paixão social, de uma pertença política ou de um amor universal. Não acredito em quem, desiludido de tudo e de todos, diz que não estamos em condições de pensar em mais ninguém senão em nós próprios.
Acredito que há necessidade de soprar nas brasas, de reacender um fogo de amor sincero no espírito dos jovens como eu, de procurar chamar a atenção de muitos para a importância da solidariedade verdadeira com os riscos que ela comporta. Mas não será porventura verdade que já fomos chamados a ser o fermento da massa? Devemos gerar fermento, voltar a dizer que não há futuro sem solidariedade, que não há porvir sem caridade, que não há esperança sem que cada um dê alguma coisa de si mesmo. O que posso fazer? Como podemos nós, os jovens, ser testemunhas de tudo isto? O que pode fazer a Igreja? Peço-lhe desculpa se estas palavras forem demasiado apaixonadas, mas sinto verdadeira urgência em encontrar respostas para todas estas perguntas que, incessantemente, me atulham a mente quando, com o Evangelho nas mãos, procuro olhar para esta sociedade que é a nossa casa de amanhã.

Penso também na tarefa educativa que muitos de nós asseguram. Quando estou nos grupos paroquiais, entre os adolescentes que me foram confiados, muitas vezes, penso que tenho a responsabilidade de me esforçar por transmitir-lhes os valores mais importantes, aqueles que Jesus nos ensinou com a sua vida. Peço ao Senhor que atinja o coração dos meus adolescentes, como fez com o meu, para que se apercebam de quem está pior, de quem sofre, e saibam, sem ideologias e guiados unicamente pelo amor, ter a coragem de pôr-se ao serviço, em humildade e simplicidade.

Peço ao Senhor que me dê a força de nunca me cansar, para ir contra a corrente, para construir relações autenticamente cristãs no mundo, para cooperar com a construção do Reino, já presente e vivo, na nossa história e pelas ruas da nossa cidade.
Peço-lhe a si, Arcebispo, que ore por todos nós: sou uma rapariga da sua Igreja e fico contente quando vejo que o senhor se empenha na justiça social, quando desafia todos os oportunismos pela verdade do Evangelho. Diga-me alguma coisa que me ajude a viver a solidariedade, a gastar-me pelos outros, embora encontre muitas dificuldades de toda a parte.

Caro Arcebispo, diga-me alguma coisa, que deveras lhe agradeço!

Valentina


Querida Valentina,

Antes de tudo, agradeço-te. A tua carta sensibilizou-me muito, até porque me chegou num dia em que me empenhei em estar ao lado e do lado dos pobres, com uma verdadeira convicção evangélica, por tudo o que um bispo pode fazer, numa diocese extraordinária e complexa como a de Milão.
Quero dizer-te alguma coisa acerca da solidariedade para com os pobres, de todos os géneros de pobreza. O Reino de Deus está próximo deles. Hoje, no meio de nós, há muitos modos de ser pobre e necessitado: muitas existências precisam de encontrar o Evangelho através dos testemunhos dos cristãos e da Igreja inteira. O amor de Deus está no meio de nós e também se manifesta com a nossa capacidade de solidariedade e de proximidade em relação a muitas pessoas que se encontram em necessidade.

necessidades da alma, onde é preciso voltar a dar a cada um o sentido da vida, do sofrimento, da perseverança nas provações, o sentido do verdadeiro amor; há necessidade da coragem de encetar caminhos menos egoístas e mais generosos em direcção aos outros, mesmo que os outros sejam diferentes de nós.
necessidades do coração, onde as pessoas estão sós, abandonadas pelos seus entres mais queridos, pessoas perdidas e estranhas dentro das paredes domésticas, imigradas e mergulhadas numa cultura multiétnica e multi-religiosa; pessoas necessitadas de afecto, de estima, de capacidade comunicativa vital.
necessidades do corpo: para muitos, hoje há necessidade da casa, das coisas para viver, do trabalho, do dinheiro e de uma esperança sólida no futuro. Há necessidades que têm de ser enfrentadas com uma política nova, clarividente e a longo prazo, aberta, concreta e factual.
Querida Valentina, precisamos de ti e da tua geração.

Fico entusiasmado ao falar contigo sobre estas coisas, porque és jovem e para mim representas o futuro, estás no meio dos teus companheiros de vida, de escola, de tempo livre, companheiros de afectos e pensamentos. Aprazer-me-ia que todos os teus amigos e os teus companheiros de universidade soubessem que o meu coração de pastor sente o anseio pela solidariedade e vê, em face de tantos fechamentos, a necessidade de confiar os percursos mais belos e mais exigentes da solidariedade cristã às novas gerações. Os teus coetâneos precisam de uma verdade credível e audaciosa, não ideológica, mas verdadeiramente próxima do bem comum de todos os homens e de todas as mulheres de hoje.

Queres saber alguma coisa de mim e agradeço-te: olho para vós, os jovens, com muita confiança; às vezes, vejo-vos confusos e sós, mas também sei que sois capazes de entusiasmo e de generosidade, sei que sofreis por causa das superestruturas ideológicas em que a sociedade, demasiadas vezes, vos encerra; sei, como tu mesma disseste, que, por vezes, sentis raiva e incómodo e vos deixais ir, porque estais cansados e necessitados de uma verdadeira introdução nas responsabilidades da vida pessoal e da sociedade civil. Frequentemente, observo-vos e nasce no meu coração uma grande confiança: não vos canseis de procurar um caminho em direcção ao bem, não só o bem para vós mesmos, mas igualmente o bem para todos.

As tuas perguntas são precisas, exactas; as tuas interrogações são directamente feitas às questões sociais de hoje e às contradições que vives todos os dias; por isso, com muita franqueza, gostaria de sugerir-te algumas sendas que poderás seguir para te manteres viva numa autêntica e evangélica solidariedade do bem.

Antes de tudo, apaixona-te pelo entendimento limpo das coisas para aprenderes a gerir a complexidade da vida social de hoje. Não é uma empresa fácil de compreender bem o que está a acontecer: é necessário restabelecer uma ordem de valores, um estilo menos agressivo de comunicação recíproca, uma forma de diálogo e uma solidariedade no bem isentos de segundas intenções: é necessário uma estima recíproca que, frequentemente, já não existe entre adultos; nota-se em muitos lugares uma desordem moral que influencia inevitavelmente as novas gerações. Precisamos de discernimento e perseverança, para compreender, para continuarmos livres, para nos tomarmos laboriosos.

Além disso, gostaria de dizer-te que mantenhas viva uma forte razão solidária: esta razão elabora e constrói pensamentos que não se fecham como paredes intransponíveis diante das verdadeiras necessidades alheias; é preciso promover conversas que não favoreçam a intolerância; travar sentimentos de fechamento e de rancor para com determinadas categorias de pessoas indistintas e massificadas; entre os jovens é preciso reagir contra a comunicação tipo «mass média» que dramatiza, mas sem clarividência e pouco projectual.

Por isso, através do estudo ou alguma leitura, prepara-te com uma formação adequada para dirigires algum lugar de responsabilidade: já desde agora nalgum contexto de menos importância e amanhã nalguma coisa de grande. Participa em algo de concreto em que se aprenda a trabalhar com amigos e adversários, com pessoas que pensam como tu e com pessoas que te exercitam no diálogo e no conforto; aprende a distinguir as adversidades dos percursos e os objectivos comuns de bem. Recorda que a tua fé e a caridade que te impele é para bem de todos e não violenta ninguém.

Concretamente, continua a crer no teu pequeno sacrifício que te leva a viver com justiça e sobriedade, dedicando tempo e também algum do teu dinheiro a um bem comum, para um proveito não estritamente individual; continua a empenhar-te também em colaborações não fáceis, ama a missão educativa que te é confiada, mantém a simplicidade e eficácia sem a necessidade de aceder a aparelhos pesados para garantir o teu interesse pessoal. Nem sempre os cristãos adultos conseguem manter-se facilmente dentro das lógicas desinteressadas e corajosas.

Neste trabalho fatigante e fascinante é inevitável algum cansaço e algum desencorajamento; convido-te a que reajas ao incómodo que surge do improviso quando nos descobrimos sós ou nos sentimos poucos a lutar pela verdade da vida e do bem de todas as pessoas. É preciso educar os nossos estados de alma para que perante a coisa pública e os acontecimentos dramáticos do quotidiano não haja uma reacção exclusivamente emotiva, frequentemente incontrolada, incapaz de lucidez e equilíbrio.
É sempre necessário ter uma visão clara do bem, individual e comum, mas também é muito importante levar a peito a maneira e o estilo com que se promove e se diz o bem. Não te abandones à tristeza ou ao desânimo: são sentimentos que isolam e não ajudam a ter a medida certa das coisas; ao contrário, procura sempre a alegria no teu operar, cultiva a simpatia, a decisão e a calma; elas conduzem a um sólido trabalho e à certeza da paz.

No início da tua carta, disseste-me com profundidade e coragem - que amas Jesus: agora, se quiseres amar a história dos homens nunca te canses de contemplar Jesus na cruz e recorda-te que os pobres dizem-nos sempre alguma coisa de Deus. Se na tua oração contemplares o Crucifixo, compreenderás até onde te conduz o amor; saberás com jubilosa certeza a que preço fomos salvos: neste aspecto divino, encontrarás uma força incrível, aquela que vem directamente das bem-aventuranças do Evangelho. As bem-aventuranças dos pobres, dos puros de coração, dos mansos, dos que procuram a paz, dos perseguidos por causa da justiça: estas bem-aventuranças, com o passar do tempo, nunca se gastam, são sempre jovens e no coração jovem difundem uma extraordinária luminosidade. Recorda-te de que os pobres e os sofredores revelam sempre alguma coisa de Deus; por vezes, são interlocutores difíceis, nem sempre imediatamente amáveis, mas se olhares bem para eles, inquietam-te e reconduzem-te de maneira diferente para o mistério de Deus.

Querida Valentina, vai em frente com esse fogo que tens no coração, conta-o aos teus amigos, procura sinais de solidariedade juntamente com eles, pensa no bem que podes fazer aos teus adolescentes, interroga-te sobre a tua vocação na universidade do bem. Jesus voltará a falar-te.

Saúdo-te com afecto e abençoo-te

O teu Arcebispo


2012-10-15 | D. Dionigi Tettamanzi

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